A DERRADEIRA
Posto que mês nenhum será lembrado,
e os ossos durarão bem mais, talvez,
que a tua débil voz de condenado,
e que o falso consolo da canção fez
menos penosa a tua travessia –
do berço à cova, ziguezagueante
como tudo que nasce à revelia,
mas luminosa como a dor errante
riscando nesta noite a trajetória
que guiará alguns menos desatentos
ao erguerem os olhos pro astro em glória
solitária; entretanto, no relento,
seremos envolvidos novamente
pela treva, porém com a lembrança
da luminosidade transcendente;
posto ser tão espesso e sem fiança
o véu da vida e o último lampejo,
da linguagem fizeste a tua casa,
teu endereço certo e sem despejo,
assim rodopiaste sem defasa
por este esquivo mundo e os seus lugares,
baixando aos subterrâneos da memória
ou subindo a vertigens estelares
da alma ligada à carne provisória.
Tudo isto posto agora, e findo o impasse,
é preciso perguntar sem demora
e mesmo sem retorno, sobre a face
final que viste em tua última hora,
tu, que cantaste a luz vertiginosa,
que vive do que perde; o que foi
fazer do próprio corpo a dolorosa
lenha e emudecer um tempo depois?
Monday, January 19, 2009
Postado por
hipergheto
às
5:51 PM
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1 comentários:
João, meu caro, vc está mandando bronca legal. Vejo com muita felicidade o quanto tens crescido, explorando a metafísica e o existencialismo, com versos "pé-no-chão", dizendo as coisas como elas são. Vejo sua poesia sob forte influência cabralina. E o que dizer do Elói, esse amigo tão querido e outro poeta de primeira? Com saudade do tempo do Sebo Diadorim e das prosas que tanto bem nos fizeram...
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