NOTURNO DO VALE DO CANELA
O corpo agitado da cidade em seu
individualismo heterogêneo
sob o crepúsculo chuvoso;
o fluxo metálico do trânsito;
a idêntica miséria dos passantes e dos pedintes;
a hora escura dentro e fora que imperativa
pendula seu peso vivo;
o ângelus ao longe, e algum demônio em sua gravidade patética,
no topo do prédio, vigia;
na luz confusa deste tempo semi-líquido, a certeza cruel
nada diz, mas muito expressa:
a vida empobrece e crispa-se de frio, que agora sopra mais agudo
e no seu vir traz a noite completa.
Sabe quem a atravessa que a casa,
a mão meiga, a ceia, o imperceptível Arcanjo, que por entre a multidão passeia,
têm pouca serventia de consolo ou escudo.
Tão seco e terrestre nesta solidão sem Deus,
bale e bale contra o próprio muro.
Ouve a lógica desesperante do eco pelos vazios corredores do corpo,
que insiste no provisório e no acidental.
Neste viaduto sobre o vale,
quando a chuva mais se adensa,
aproxima-se do parapeito,
quando a treva é mais intensa,
e o vôo sem asas é quase aceito.
O coração com os seus caminhos aéreos
nunca repousa em satisfações,
quantas vezes queda em negativas indagações.
Com o trânsito a multidão escoa,
um cão se encolhe num canto ou é uma pessoa?
Aceitar o conflito contínuo que a vida respira, mesmo quando a luz
dos postes bate nula contra a noite,
a chuva, a desesperança.
Monday, October 27, 2008
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Thursday, October 23, 2008
Os poucos visitantes deste blogue sabem que aqui eu quase nada divulgo sobre lançamentos, espaços, publicações e afins, nem coisas minhas publicadas em outros lugares. Uma virtude? Não, negligência mesmo. Porém, este espaço eu faço questão de divulgar, pela minha amizade com Pedro Belmonte Fraga. Antes umas palavrinhas sobre ele.
Conheci seu Pedro no antigo sebo Berinjela, eu trabalhava lá e ele era uma visita constante. Depois, com minha branca www.allexleilla.blogspot.com, abrimos nosso próprio sebo, ele aparecia pelo fim da tarde e era o de sempre: cigarros, café e uma boa e longa conversa. Seu Pedro pode ser chamado sem exagero de um mestre impressor. Conhece muito da feitura estética ao acabamento gráfico de livros, revistas e semelhantes. Com mais de 40 anos de experiência. Sim, ele possui uma das maiores bibliotecas particulares, ouso dizer, do país.
Então, para os que moram em Salvador, acontecerá amanhã um lançamento no antigo sebo Berinjela, rua da Ajuda, em frente à igreja da Ajuda, centro. Pedro Fraga comprou e dará continuidade ao espaço onde funciona o sebo de livros, vinis, cds, quadrinhos e restaurante natural. Ele ainda não renomeou o espaço, mas pretende fazer dali um lugar de encontro, pequenas exposições, debates etc. Visitem.
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Saturday, October 18, 2008
NA MANHÃ DA QUEDA
Na manhã da queda, Deus meu,
o pior foi nosso apego
desmedido e desejado
pela canção da véspera,
solfejada por aquele
anjo com sua aparência
profunda sob a desgraçada
nudez. A incontornável
solidão – que nos tomou nos
desertos e florestas em que
vagueamos depois – foi a
nossa nova morada,
feita da seiva real e
deste lume aflito para
cumprirmos o caminho sem
mapa, nosso acúmulo de
rumos no leito final. Na
nova morada, impossível
foi desprezar o azeite e o mel,
já que não tínhamos mais ao
alcance da vontade o céu
e a intangibilidade de
seus frutos. Assim, o melhor
de nós cegou-se diante da
grandeza de tudo. Sendo
o que somos, tentamos
habitar esta terrível
maravilha: amar sem saber
o muito que perdemos.
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Saturday, October 11, 2008
Uma canção antiga.
CANÇÃO PÂNICA
Mancha momentânea
cinzenta penetrante
no todo circundante
baixando dolorosa
antes da treva total.
Numa panorâmica,
num giro radical
o ser se entontece e
na condição pânica
faz o pelo sinal.
Prédios, carros, praças,
nada mais se distingue
antes da treva total;
matiz do envelhece,
augúrio de desgraça
ou (que o Anjo não se
vingue) o Eterno que
desce definitivamente
sem deus que o desfaça?
É pavorosa, todavia,
tristeza que extravasa
e arregala a alma
de si insipiente sem
outra moradia que
o grito que a abrasa;
valia insustentável
da terrena agitação
no seu descompassado
impulso, milênios
num átimo, que a
mancha num rapto
vibra no seu pulso
e agulha a indagação:
“Conhece e não aceita,
não provou e já duvida,
pensa a porta suicida,
mas é na relva que se
deita; insulta o vital e
o vulgo do modo dos
que fazem sangrar e
dos que cospem;
cose e descose dias
para guiar-se e o que
mesmo difícil ilumina
usa para cegar; plana
na vertical divina e
ama a linha horizontal
do mar; ou ao sal se
destina ou apodrece
a vinha nos tonéis do
lagar; o real que rumina
(os cartéis do ar) no
côncavo cristal dos
olhos, o que salva ou
perdoa? Quando sonha
que pousa na louça
da matéria ela presta
se esboroa. Ouça,
o rigor da artéria é
cérebro e coração;
você que é vagaroso,
cala-te, espera e crê.
Assim como é, assim vê.”
A mancha cinzenta
momentaneamente
parece respirar antes
da noite total, que
crassa e violenta
cai sem anunciar,
trava alma e dente
com seu gume letal,
mas no centro da treva
a lua vista através
da trincada vidraça
é o último lume da
graça, que ele ínvio e
de viés mira sem
resmungar, e tenta
respirá-la feito planta
a luz; mas no espaço
da sala alterca o luar:
“Ínvio e de viés?
Dobra-te! O que
deduz da dor e da
miséria intrínseca
ao seu estar? Dobra-te!
Aceitar não é reduzir-se,
aprenda – morre a
estrela para mais
brilhar em sua senda.”
Preso entre dois pesos
não nota a manhã
palmilhando a casa
com sua solaridade sã,
no entanto deixa o
ser aceso curvar-se
ante o secreto que
finíssimo vaza pelas
brechas do teto.
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hipergheto
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