Sunday, September 21, 2008

O mal comum – doméstico e público, vulgaridade que é força e não debilidade, feito erva ruim infensa ao jardineiro mais hábil – é que é a labuta mais ranheta. Adianta extirpá-lo pela raiz? O barro de que somos feitos é fértil demais para essa invulgar renitência. Convive-se. E alguns só pensam em podá-lo quando sua ramificação já se tornou intolerável para a fachada externa. A grande manada é cega para o matagal.

Friday, September 19, 2008

PEQUENAS CONFISSÕES

DOIS ESTADOS QUE NÃO SE MISTURAM


Se não se misturam são, é óbvio, distintos. Tentarei traduzi-los para que o possível leitor possa bebê-los como água para uma sede menor. Por hora, nada de sedes extremas.

Um é quando escuto Dorival Caymmi, Baden Powell, numa manhã ensolarada de domingo ou feriado, ou jazz, ou rock, ou choro (se bem que choro é um intermediário entre os dois estados, tendendo a apagar a linha fronteiriça, mas não apaga). Ou quando chove. Acho que chuva é sempre colheita, que a terra germinará. Resquício de interiorano de um lugar muito, mas muito seco. Como diz minha mãe: o tempo aqui é amarelo. Onde chuva era e é fartura.

Esse estado eu chamo de telúrico, é horizontal, pode subir, mas não passará de determinada faixa.

O outro é quando escuto Bach, Mozart, Beethoven, ou leio Antonio Machado, Bruno Tolentino, Platão, Aristóteles, a Bíblia, e ultimamente tenho me demorado mais na música barroca. Ou quando entro em estado de contemplação vendo uma imagem de Vermeer, deflagrado por sua luz cotidiana e magnífica, vista via Net ou livro, já que não conheço pessoalmente os seus quadros. Ou quando contemplo o feminino. Tentei traduzir isso no poema que reproduzo abaixo. Se não consegui foi imperícia minha, mas bem que tentei. Ou quando me foi dado a Graça, o que só me aconteceu uma única vez em 33 anos de vida. Se tal coisa for muito hermética indico o livro Eu e Tu, do filósofo alemão, Martin Buber. Pode-se encontrá-lo em sebo ou livraria. Pois tal coisa me aconteceu através dele.

Esse estado é vertical. Não há uma faixa limite. Há limites para o sublime?
Um é inferior ao outro? Sim. Como já disse Olavo de Carvalho: “A prioridade determina a hierarquia.”

Poderia aumentar a lista de exemplos e detalhá-los mais. Talvez num próximo post.


DAS ELEGIAS: LÍQUIDA


A curva não é só carícia,
e sua graça muitas vezes
é aguda.
Se excessiva corrompe:
constante doçura na língua.

A forma é a intensa feminina,
começa no que delineado é coisa
e além do corpo é forma que não
se finda, pois
se colo que acolhe
também pode sufocar
se não calma e
ainda.

Alguns modos de perceber a feminina:
cúpula,
árvore,
vale,
anca,
água,
vento
na campina.

Tuesday, September 16, 2008

ORAÇÃO A MEIO CAMINHO


Onde pude errar, errei,
foi tanto que já nem sei.

E nesta encruzilhada dos
meus caminhos maiores que
agora me desencontro
soletro esta reza amarga,
Deus meu, tão mal balbuciada
num genuflexo tonto
que acabo dobrando a carga.

E neste dia que amanhece
nublado que se auto-engana,
a luz que mais se entristece
é dolorosamente humana.

A grave alegria de ser,
que Tu nos deste, Senhor, é
o secreto sussurro do
vento, que vem do largo da Sé.

Thursday, September 11, 2008

Tuesday, September 09, 2008

Temos uma tendência arbitrária, porém inata, para fixar e definir. O que é impossível do ponto de vista humano, pois os elementos da vida são dinâmicos, daí ela ser uma amargura e um milagre.

***

Ninguém suporta, por muito tempo, descer os becos mais sujos de sua cidade interior. É duro ver, no largo dessa cidade, a pátina e o cocô de pombo no nosso monumento ideal. O bronze moral é o mais passível de ferrugem.