Wednesday, July 30, 2008

"É difícil fazer compreender, está visto - e já não faço o menor esforço para que o seja - que o fato de achar a obra de tal ou qual cidadão uma imundície literária não implica em não considerá-la melhor do que a minha. A crítica não elimina categoricamente a autocrítica."

Marques Rebelo, in A mudança, segundo tomo d'O espelho partido. A edição que possuo é a primeira, de 1962, da Livraria Martins Editora.

Tuesday, July 22, 2008

DAS ELEGIAS: RESOLUTA

Estos días azules y este sol de la infancia.
Antonio Machado



Não mais memória, não mais a vaidade
de durar em qualquer ponto do espaço;
agora a simples luz sobre a cidade,
conforto de mistério sem cansaço,

não fácil. A bendita brevidade
vivida, que cintila no meu braço
onde pousa veloz em raridade
canta e parte azulando o sanhaço que

cruza o parque e o círculo de clareza;
nos ipês altos, tão velhos, o vento
é apenas o vento, e na pobreza

digna dos vendedores atentos
os níqueis dão os pães da certeza, que
os pombos migalham no pavimento.

Thursday, July 03, 2008

A DERRADEIRA


Posto que mês nenhum será lembrado,
e que os ossos durarão mais, talvez,
que a tua débil voz de condenado,
e que o falso consolo da canção fez

menos penosa a tua travessia –
do berço à cova, ziguezagueante
como tudo que nasce à revelia,
mas luminosa como a dor errante

riscando nesta noite a trajetória
que guiará alguns menos desatentos
ao erguerem os olhos pro astro em glória
solitária; entretanto, no relento,

seremos envolvidos novamente
pela treva, porém com a lembrança
da luminosidade transcendente;
posto ser tão espesso e sem fiança

o véu da vida e o último lampejo,
da linguagem fizeste a tua casa,
teu endereço certo e sem despejo,
assim rodopiaste sem defasa

por este esquivo mundo e os seus lugares,
baixando aos subterrâneos da memória
ou subindo a vertigens estelares
da alma ligada à carne provisória.

Tudo isto posto agora, e findo o impasse,
é preciso perguntar sem demora
e mesmo sem retorno, sobre a face
final que viste em tua última hora,

tu, que cantaste a luz vertiginosa,
que vive do que perde, então, como foi
fazer do próprio corpo a dolorosa
lenha e emudecer um instante depois?