ESTAMPA
01
Sempre falta alguma coisa
feito saída de viagem,
porém nada foi esquecido,
definitivamente certo:
sempre falta alguma coisa –
no vôo errático da ave
em busca, no acúmulo de
atos, na escolha do vário,
no acatamento do imenso,
na recusa da identidade,
ou disso o contrário, mesmo
que não veja, falta alguma
coisa, que se concretiza em
trajeto ou imobilidade.
E essa falta integrante do
ser que ao Ser aspira ergue com
sua falha uma divisa
onde se apóia, um momento,
e é toda a sua cantiga.
02
Sei que esperamos, sei.
O sonho que se desata?
Na sala o terror súbito?
O até aonde nos for dado?
A Volta em julgamento?
Quem apressa a data sai
de dentro da esfera; quem
cada momento amarga,
ainda espera: a possibilidade
aberta que deságua em
Atlânticos de sentido,
no sempre espanto ou no
todo apagamento.
A espera e as suas leis,
a sua disciplina
austera e demorada, aqui nesta
brevidade que nos é
dolorosamente doada.
Tuesday, June 24, 2008
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Saturday, June 21, 2008
DAS ELEGIAS: MNEMÔNICA
Este vento-infância que
sopra nos cabelos, vem
de leste ou das paragens
incomensuráveis de
dentro? Vem súbito e sem
aviso e acerta o centro
do ser, que se suspende
em vida leve, porém
densamente; gracejo
breve na nossa infinda
miserabilidade.
Vejo ainda o perdido,
pois o perdedor está
preso à coisa perdida,
labor de vida inteira
de minuto a minuto
enriquecida. À beira
do esquecido o perdido
cheira. Este provimento,
alento que o espírito
mnemônico sopra
é a presença secreta
de que a alma só revela
quando além se completa.
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hipergheto
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Tuesday, June 17, 2008
SOL ABSOLUTO
Setembro castigava quase ao fim do estio;
o azul pálido sem nuvens do dia aberto;
das possibilidades de ir havia o rio,
fui; a casa ficou pra trás. Se no deserto
íntimo não há sol absoluto, confundia
o que eu via – a solar solidão da paisagem,
secura sufocante e toda aquela poeira,
nascida onde? Céu, chão, da escassa folhagem? –
com que eu sentia, numa harmonia rasteira
que mais enlouquecia do que equilibrava.
Sim, apertava o passo e o pensamento indo
sem saber que gravidade me sustentava,
se descia num grau zero ou se ia subindo
as ladeiras que dentro e fora eu caminhava,
vertiginosas! Nesse quase apagamento
das fronteiras entre o clarão e a cegueira
foi que me estaquei tonto no sujo barranco,
sem nada entender do tornado interior, que
vão me levara até ali. Para ser franco,
ainda não decifrei a razão daquela dor.
Quem há de decifrá-la? Ninguém, certamente.
O ápice da explosão iminente, sem volta,
impedido por uma invisível escolta
(eu, Senhor, que não sou merecedor da Tua
indiferença) foi aceso cegamente,
mas verticalizado, negra epifania,
por esta minha estrada tortuosa e nua
ou por algum demônio no terrível dia?
Não posso saber. Sei que a minha mente estua
quando se lembra, e só vê a tarde que caía.
Foi sentado na margem sossegadamente,
ouvindo o curso grave das águas barrentas,
que o círculo das coisas se abriu de repente:
chispa de entendimento que se apresenta
e tudo, tudo sob esta luz significa
num segundo solene que se se amplifica
e vale a vida inteira; mais que alumbramento
ou simples suspensão do entorno retratado,
a plenitude mútua com rio e o vento,
com pescador e sua canoa d’outro lado.
Levantei-me, à noite, pois, já estrelava;
retornei ruminando aqueles dois instantes
extremos feito o clima que o mês castigava,
e revi meu percurso sob a lua minguante:
as promessas mentidas, infâmias negadas;
o perdedor está preso à coisa perdida,
quer tenha sido combate, hora contemplada,
tenha sido amor vil ou migalhas vividas.
Assim eu murmurava minha reza errada
enquanto dolorosamente retornava.
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Monday, June 09, 2008
A GRUTA E O MORRO
Para Antonio Machado
&
Mário Vieira de Melo.
I
Romeiro sem estrada
seus caminhos d’alma,
que nunca são vagos
na aparência calma
da pobre esplanada,
que do seu semi-arco
vê-se o rio e a tarde,
sua trilha de luz
no espelho d’água
onde passa um barco.
Frágil peregrino
seus caminhos d’alma;
na torre sem sino
de rocha calcária
cada pedra canta
uma infalível ária,
a mais interior,
a mais necessária
de tantas, de tantas;
com paciente rigor
cada pedra canta.
E de que fala essa ária –
da áspera beleza
da ardente paisagem?
Da crença precária?
Da falsa realeza
de toda essa imagem?
Também.
Porém
é no pé da pedra a
música do morro, a
drástica doutrina,
a luz aqui ali medra
vai ao seu socorro,
árdua, mas ensina.
Tal luz modelada
(claríssima como água,
forte feito a vida)
faz-se feito espada
em fole de frágua
ao ser esculpida.
Inibir o inato,
a ávida violência,
a aventura diária
vista em todo ato,
porém a insistência
(não como alimária)
dessa disciplina
dentro acha saída –
se organiza a origem
o mais se destina
na rude jazida.
É nessa esplanada
que está a gruta-igreja
no morro encravada
pela Natureza.
Bem dispostas no adro,
por um fiel doada
estátuas de bronze,
então você veja a
crueza do quadro,
ao todo são onze
(esse bronze arqueja?);
tão ensimesmadas,
porém não lhes faltam
o volume de dor
de humilde soberba
da criatura cega,
o infinito pavor
daquele que nega.
Entrar para subir,
passa pela arcada
e dentro da gruta
(se deixa conduzir
passada a passada)
seu ser se espraia
em peregrinação
quase absoluta,
– lá fora a luz desmaia –
vai de cova em cova
e de altar em altar
todo contemplação;
no Senhor dos Passos
seu passo se estorva
em resignação
e encontra-se a clamar:
– Senhora das Dores
somente em seus braços
se pode suportar
tamanhos horrores;
Cova da Serpente:
a queda se conhece,
(melhor conhecê-la,
pois ao ser dormente
de que vale a prece?
Nascer pra sabê-la.)
Negros escaninhos,
cavidades d’alma,
bem e mal vizinhos
noite negativa
e que se efetiva
em cada uma palma.
Ferrugem cinzenta
parede a parede
desta gruta-igreja,
só quem ama tenta
mergulhar na sede
para que assim seja a
virtude valente
duma ação reflexa,
tão interiormente
que o fora se anexa.
Atravessa o templo
sua alma andarilha
– sandálias de vento –
na oração respira
um instante no tempo;
toda nave brilha
milagrosamente.
Não precisa entrar na
Sala dos Milagres,
em cada ex-voto está
outro que o consagre.
Romeiro sem estrada
frágil peregrino
volta para casa
amanhã em brasa
tens o teu destino.
II
Caminho de pedras
que o sol incandesce,
fantástico perfil
o morro aparece
e a vista se eleva
na quentura de abril,
caminho de pedras,
paixão não é queda;
grimpas altaneiras,
lâminas prontas,
a luz verdadeira
não nos amedronta;
árvore em flagelo
e plantas de espinho
nessa estreita senda,
mas o íntimo duelo
não se faz sozinho
– Deus que nos atenda –;
ao meio da subida
o suor escorre,
ele abre a camisa,
repensa sua ida,
à sombra recorre,
um frescor de brisa
alegra e consola
seu corpo cansado,
e o coração canta
seus fundos pecados;
goza na tristeza,
mas, ai incerto mundo
a barriga cheia
e o estômago fundo;
o monstro sutil
que ajuda, louva, ama,
mas se o sol o clareia
é no olho outra escama.
Sai da sombra e anda,
o coração pesado
quase se desmanda,
nem tudo é castigo –
manhã que aqui se faz
tão presentemente:
a infância-abrigo e o
medo adolescente.
Depois de tropeços,
câimbras e cortes,
da tendência forte
que se traz do berço
ele alcança o topo
e circu-vislumbra
e volta ao pé de si
como quem se encontra.
Se a aragem fala no
ciclo da tarde, então
o romeiro se cala.
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hipergheto
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