Tuesday, November 25, 2008

O ESPAÇO E A SUA PORTA


I

Aqui nessa estrada
auto não passa,
talvez um boi,
talvez fantasmas;
nela a pegada
da mínima fauna:
inseto, lacraia,
os mortos maiores
ao redor da casa,
que lá no alto
feito a manhã alta
impõe à paisagem
a rústica fachada,
não é luz fixada,
gravura íntima
sofrendo a dor
do que passa,
demora límpida
pelo eterno riscada,
não é a estátua
nostálgica, recusa
do que morre, pois
desça a estrada:
pedra e cascalho,
o vento na relva,
o córrego escorre,
o frêmito da mata,
o frio quase arisco
da manhã ainda alta,
veja que tudo vive
como nota grafada –
corda, sopro, piano,
para reacendê-la
bastando vibrá-la.

Descobrir é depois,
não tão tarde
nem tão noite,
que não se possa
beber da água
do seu acorde.
O perfume é a chave
para a memória
despetalar-se feito
flor vital no seu
sítio interior,
valor sem cédula,
ave que se apanha
em sonho e acorda
de mãos vazias.
Revisita sua
estada líquida
imensurável no
riacho-riacho
dessa moradia
que a lembrança é,
entre os baixios
da carne e o céu-
abismo d’alma,
talvez um tipo de fé,
talvez um tipo de mel,
desconhece a fonte,
mas dessedenta e lava
em sonho e quando
o milagre brincava,
não é a infância
um milagre vivido?
Não estar estando
e amando ter sido.

Água no lajedo
em pequenas poças,
água inesgotável
menos pelo estio,
menos pela sede
de bicho, de gente
mais pela memória.
Água e árvore, esse
sem limite-folhagem
de copa em copa
num verde arco,
por mais vivo
tudo mais áspero
no espaço passado,
do tronco, da casca,
silvestre plumagem
do arco da vida em
seu rígido curso
insubornável.

O tempo na ramagem
se debruça e na
ribeira bebe o
sumo da matina,
no frescor rupestre
dos frutos ácidos
o gosto da origem,
que importa a velhice
de cada coisa criada,
sobre a terra árida
a vida descampada.

II

Na quietude severa
o ar é largo e claro,
na linha do seu colar
o azul nítido de cima
desce se adensando
em serras esparsas,
numa dessas a casa.
Tratemos seu entorno:
do ponto mais distante
vamos centrípetos em
desvios de contorno
nos aproximando;
monte a monte ondula
a limpa caligrafia
de plástica bruta.
Vê: naquela curva,
sumiu – arrieiro ia –
volta com sua mula.
Das serras ao meio
(vivência rasteira,
sulcos, gretas e veios)
encravadas destacam
pequenas palmeiras, a
nobreza agreste do
porte humilde e do fruto
pobre, a paisagem inteira
(apesar do recorte
translúcido e agudo)
de um sonho se veste.
Eis o real lendário
que nunca se elucida,
neste esboço de estudo
com seu traço agrário,
com seu trato rudo
asseverando a vida.
A tarde derrama sua
tristeza parda e o chão
ferruginoso com a
pele se iguala, a lua
no céu arredondada
desponta e encontra
a essência doméstica
na despensa da casa:
é a hora dos fantasmas.

O primeiro é magro,
seco de fala e gesto,
depois do dia agro
a noite é um resto...
Esse, patriarca gris,
que a luz da candeia
inteiramente diz
que ele nada receia.
Do outro lado da mesa,
essa a que mais dói,
perdê-la foi a certeza
que sempre se reconstrói,
matriarca e parideira,
doze luzes contadas,
mãos que varrem a eira
e recebem a prole doada.
A ceia é sóbria e posta
filhos e netos comem
calados, e na encosta
a noite se consome
nos ruídos da mata,
agora treva fantástica
sob o luar prata.
A casa é véspera e
prenuncia ruína,
cada parede caiada
silenciosamente
ensina: a morte é
branca, mas não é limpa.

1 comentários:

anjobaldio said...

Poema fantástico, João. Grande abraço.