Uma canção antiga.
CANÇÃO PÂNICA
Mancha momentânea
cinzenta penetrante
no todo circundante
baixando dolorosa
antes da treva total.
Numa panorâmica,
num giro radical
o ser se entontece e
na condição pânica
faz o pelo sinal.
Prédios, carros, praças,
nada mais se distingue
antes da treva total;
matiz do envelhece,
augúrio de desgraça
ou (que o Anjo não se
vingue) o Eterno que
desce definitivamente
sem deus que o desfaça?
É pavorosa, todavia,
tristeza que extravasa
e arregala a alma
de si insipiente sem
outra moradia que
o grito que a abrasa;
valia insustentável
da terrena agitação
no seu descompassado
impulso, milênios
num átimo, que a
mancha num rapto
vibra no seu pulso
e agulha a indagação:
“Conhece e não aceita,
não provou e já duvida,
pensa a porta suicida,
mas é na relva que se
deita; insulta o vital e
o vulgo do modo dos
que fazem sangrar e
dos que cospem;
cose e descose dias
para guiar-se e o que
mesmo difícil ilumina
usa para cegar; plana
na vertical divina e
ama a linha horizontal
do mar; ou ao sal se
destina ou apodrece
a vinha nos tonéis do
lagar; o real que rumina
(os cartéis do ar) no
côncavo cristal dos
olhos, o que salva ou
perdoa? Quando sonha
que pousa na louça
da matéria ela presta
se esboroa. Ouça,
o rigor da artéria é
cérebro e coração;
você que é vagaroso,
cala-te, espera e crê.
Assim como é, assim vê.”
A mancha cinzenta
momentaneamente
parece respirar antes
da noite total, que
crassa e violenta
cai sem anunciar,
trava alma e dente
com seu gume letal,
mas no centro da treva
a lua vista através
da trincada vidraça
é o último lume da
graça, que ele ínvio e
de viés mira sem
resmungar, e tenta
respirá-la feito planta
a luz; mas no espaço
da sala alterca o luar:
“Ínvio e de viés?
Dobra-te! O que
deduz da dor e da
miséria intrínseca
ao seu estar? Dobra-te!
Aceitar não é reduzir-se,
aprenda – morre a
estrela para mais
brilhar em sua senda.”
Preso entre dois pesos
não nota a manhã
palmilhando a casa
com sua solaridade sã,
no entanto deixa o
ser aceso curvar-se
ante o secreto que
finíssimo vaza pelas
brechas do teto.
Saturday, October 11, 2008
Postado por
hipergheto
às
7:55 PM
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