Monday, October 27, 2008

NOTURNO DO VALE DO CANELA

O corpo agitado da cidade em seu
individualismo heterogêneo
sob o crepúsculo chuvoso;
o fluxo metálico do trânsito;
a idêntica miséria dos passantes e dos pedintes;
a hora escura dentro e fora que imperativa
pendula seu peso vivo;
o ângelus ao longe, e algum demônio em sua gravidade patética,
no topo do prédio, vigia;
na luz confusa deste tempo semi-líquido, a certeza cruel
nada diz, mas muito expressa:
a vida empobrece e crispa-se de frio, que agora sopra mais agudo
e no seu vir traz a noite completa.
Sabe quem a atravessa que a casa,
a mão meiga, a ceia, o imperceptível Arcanjo, que por entre a multidão passeia,
têm pouca serventia de consolo ou escudo.

Tão seco e terrestre nesta solidão sem Deus,
bale e bale contra o próprio muro.
Ouve a lógica desesperante do eco pelos vazios corredores do corpo,
que insiste no provisório e no acidental.

Neste viaduto sobre o vale,
quando a chuva mais se adensa,
aproxima-se do parapeito,
quando a treva é mais intensa,
e o vôo sem asas é quase aceito.
O coração com os seus caminhos aéreos
nunca repousa em satisfações,
quantas vezes queda em negativas indagações.

Com o trânsito a multidão escoa,
um cão se encolhe num canto ou é uma pessoa?
Aceitar o conflito contínuo que a vida respira, mesmo quando a luz
dos postes bate nula contra a noite,
a chuva, a desesperança.

2 comentários:

TEATROFANTASMA said...

Cabra das metafísicas assassinadas pelo Sol...preciso te mandar meu TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS...
Mas perdi te enddereço..
mande para meu
marceloahriel@yahoo.com.br
Um abraço-blue

neuza pinheiro said...

João

cá do meu canto, quem sabe a que altura do trecho, agora mais cão,
saudo a máquina do teu coração, tão vermelha tão perfeita que tilintava tilinta e tilin encapelada em Poesia
o poema veja a ema
e peça:
vire um poema!