Friday, September 19, 2008

PEQUENAS CONFISSÕES

DOIS ESTADOS QUE NÃO SE MISTURAM


Se não se misturam são, é óbvio, distintos. Tentarei traduzi-los para que o possível leitor possa bebê-los como água para uma sede menor. Por hora, nada de sedes extremas.

Um é quando escuto Dorival Caymmi, Baden Powell, numa manhã ensolarada de domingo ou feriado, ou jazz, ou rock, ou choro (se bem que choro é um intermediário entre os dois estados, tendendo a apagar a linha fronteiriça, mas não apaga). Ou quando chove. Acho que chuva é sempre colheita, que a terra germinará. Resquício de interiorano de um lugar muito, mas muito seco. Como diz minha mãe: o tempo aqui é amarelo. Onde chuva era e é fartura.

Esse estado eu chamo de telúrico, é horizontal, pode subir, mas não passará de determinada faixa.

O outro é quando escuto Bach, Mozart, Beethoven, ou leio Antonio Machado, Bruno Tolentino, Platão, Aristóteles, a Bíblia, e ultimamente tenho me demorado mais na música barroca. Ou quando entro em estado de contemplação vendo uma imagem de Vermeer, deflagrado por sua luz cotidiana e magnífica, vista via Net ou livro, já que não conheço pessoalmente os seus quadros. Ou quando contemplo o feminino. Tentei traduzir isso no poema que reproduzo abaixo. Se não consegui foi imperícia minha, mas bem que tentei. Ou quando me foi dado a Graça, o que só me aconteceu uma única vez em 33 anos de vida. Se tal coisa for muito hermética indico o livro Eu e Tu, do filósofo alemão, Martin Buber. Pode-se encontrá-lo em sebo ou livraria. Pois tal coisa me aconteceu através dele.

Esse estado é vertical. Não há uma faixa limite. Há limites para o sublime?
Um é inferior ao outro? Sim. Como já disse Olavo de Carvalho: “A prioridade determina a hierarquia.”

Poderia aumentar a lista de exemplos e detalhá-los mais. Talvez num próximo post.


DAS ELEGIAS: LÍQUIDA


A curva não é só carícia,
e sua graça muitas vezes
é aguda.
Se excessiva corrompe:
constante doçura na língua.

A forma é a intensa feminina,
começa no que delineado é coisa
e além do corpo é forma que não
se finda, pois
se colo que acolhe
também pode sufocar
se não calma e
ainda.

Alguns modos de perceber a feminina:
cúpula,
árvore,
vale,
anca,
água,
vento
na campina.

1 comentários:

Xavier said...

um poema para o dois
para o número dois
de discrepâncias
para desinteresses
um poema para o duo
o dueto ou para o gueto
do ego

abraço forte, conterrâneo.